quarta-feira, 3 de agosto de 2016

O amor e a realidade

Ele era um pouco mais velho que eu quando começou a fazer aulas de piano comigo. Estávamos na Alemanha, o ano era 1993. Tinha pressa, queria aprender o mais rápido possível, nem que para isso tivesse que estudar quinze horas por dia. Perguntei o porquê de tanta pressa e ele acabou confessando: no prédio onde vivia, morava também uma cantora de ópera (uma mezzo-soprano de voz maravilhosa que veio a se tornar grande estrela na ópera de Munique), e estava perdidamente apaixonado por ela. Seu plano: aprender a tocar piano, oferecer-se para acompanhá-la ao instrumento e assim ter um pretexto para vê-la com frequência. Guardei para mim a opinião de que seu plano era ridículo e de que certamente haveria meios muito mais fáceis e rápidos de fazer tal aproximação. Enfim, começamos a trabalhar. Meses depois, pasmem: seu plano deu certo!!! Começaram a namorar e em menos de um ano se casaram – fui padrinho do casamento. Durante toda a cerimônia, fiquei lembrando do insólito e improvável caminho percorrido por aquele amor. 

Era mesmo um personagem interessantíssimo, esse meu amigo. Antes de se mudar para a cidade onde viemos a nos conhecer, ele havia passado dez anos num mosteiro na França. Chegou porém um momento, conforme me contou, em que começou a se sentir angustiado e cheio de dúvidas. Decidiu compartilhar sua inquietude com o abade, um ancião de grande sabedoria, que depois de muito meditar lhe disse: La tension c'est la non accord avec la réalité (A tensão é o não acordo com a realidade). Foi o suficiente: abandonou o mosteiro e foi ter com o mundo.

E o mundo lhe sorriu (não logo de cara e não sempre: apanhou um monte também). Mas encarou sua realidade. Como? Não sendo realista.


Alberto Heller

5 comentários:

  1. Porque ninguém lhe disse que era impossível... foi lá e fez!!! Essa história daria um livro, não só uma crônica! KKK!! Adoro histórias de amor com finais felizes! Parabéns para ele (e para você, que tornou a história pública, tão bem escrita!).

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  2. História inspiradora. Agora, quem passou dez anos num mosteiro tem que ser alguém com muita determinação, paciência e enorme disciplina. Neste caso, como ainda havia, de certa forma, uma inspiração amorosa, tinha tudo para dar certo.

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