segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Enquadramento: limitar para libertar

Conectamos a ideia de liberdade com a permissividade total, com as possibilidades ilimitadas e irrestritas. Posso tudo, logo sou livre.

No excelente documentário Janela da Alma (2001 – João Jardim e Walter Carvalho), no qual várias personalidades são entrevistadas a respeito do olhar e da visão, o cineasta Wim Wenders fala da importância do enquadramento (framing). Segundo ele, a questão do enquadramento não é tanto o que fica "dentro", mas o que fica "fora", o que não se mostra. Enquadrar significa uma escolha contínua em relação ao que será excluído. Ele comenta então que certa vez tentou usar lentes de contato mas que não se adaptou, pois com elas "via demais", sentindo então falta do enquadramento propiciado pela armação de seus óculos.

Zizek, no livro A visão em paralaxe, afirma que "em seu aspecto mais elementar, a liberdade não é a liberdade de fazer o que se quer (isto é, de seguir nossas tendências sem nenhuma restrição imposta de fora), mas fazer o que não se quer, frustrar a realização 'espontânea' de um ímpeto. (...) O gesto ético elementar é um gesto negativo, é bloquear nossa tendência direta".

Hoje queremos tudo mas não nos contentamos com nada (somos escravos infelizes da oferta infinita). Acesso bibliotecas online onde estão disponíveis infinitos volumes; ziguezagueio entre muitos mas não me detenho em nenhum. Sinto certa inveja dos antigos, que só possuíam alguns poucos livros copiados a mão os quais carregavam sempre consigo: seu tesouro.

Alberto Heller

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